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O QUE FOI O FENÔMENO THE LAST OF US?

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Era um domingo de 2013, eu nunca fui de chorar com videogames (exceto você Celeste), mas o ápice de um jogo é o “arrepio”, quando eu sinto aquele calafrio na espinha significa que independente do produto de entretenimento que seja, naquele momento ele atinge o seu ápice no que diz respeito a me tocar, me fazer sentir algo, afinal este é o papel da arte correto? Provocar, te fazer sentir algo, a partir desse momento ela já atingiu seu objetivo, mas como definir um produto que se tornou um conjunto de áudio/visual atingindo seu ápice em imersão e “story telling” em um único jogo? Como definir a sensação de estar jogando algo que eu jamais tinha sequer imaginado jogar até aquele momento?

Bom, isso tudo que eu narrei foi a minha sensação ao terminar The Last Of Us em meu PlayStation 3, eu tive uma relação um pouco distinta da maioria, eu tinha acabado de zerar (mais de 3 vezes cada) todos os três primeiros Unchated’s e sabia que da Naughty Dog só podia vir coisa boa, meu tio vendo o hype que estava se solidarizou e fez a pré venda do game, antes mesmo de jogar ele colocou em minhas mãos, para que eu pudesse viver aquilo que eu estava esperando desde o fim de 2012, o que eu vivi ali foi inesquecível, a trilha sonora suprema e perfeita de Gustavo Santaolalla, as animações de uma equipe brilhante comanda também por Neil Druckmann em conjunto com Bruce Straley, ambos também escreveram aquela história perfeita que te deixa sem fôlego do início ao fim, fazendo cada passo daquela jornada extremamente marcante e fundamental a qualquer gamer da época.

Mas como tudo começou? Digo, não comigo, mas em relação ao desenvolvimento mesmo? Bom, desenvolvimento na Naughty Dog nunca foi uma palavra que gerasse sentimentos de amor e paixão, dado o histórico de crunch abusivo do estúdio, que começou a se acentuar após Uncharted 2: Among Thieves, quando Amy Henning e parte da Naughty Dog foram desenvolver Uncharted 3: Drake’s Deception, vale lembrar que o desenvolvimento do primeiro e segundo game da franquia foram escritos pela senhora Amy, com auxílio de seus colegas Bruce e Neil, entretanto, com os dois projetos sendo desenvolvidos ao mesmo tempo, o último jogo da franquia Uncharted foi Amy quem teve a responsabilidade de escrever a última aventura de Drake no console onde nasceu, o PlayStation 3.

A dupla já mencionada, Neil e Bruce foram desenvolver The Last Of Us, Bruce já havia trabalhado em games como Gex (1995) e Jak and Daxter (2001), e por fim após o sucesso do primeiro Uncharted, ele seria responsável por comandar no cargo de diretor o desenvolvimento do segundo jogo da franquia (e para muitos, não é o caso deste humilde redator, o melhor jogo).

Já o senhor Neil Druckmann se tornou desenvolvedor em 2004, após ter uma grande intimidade e evidente talento com animação, ele acabou optando por sEgito na área de jogos mesmo que sua pretenção inicial fosse o cinema, fato é que um tal de Half Life convenceu o cara de que com uma história rica e aliada a mecânicas não necessariamente complexas, mas bem feitas e executadas com primor, poderia se fazer coisas grandiosas no mundo dos videogames, tanto quanto no próprio cinema.

Em 2004 Neil viria a conhecer Jason Rubin que simplesmente é ninguém menos que o co-fundador da Naughty Dog e criador da franquia Crash Bandicoot, logo ambos se deram bem e Neil foi contratado para trabalhar na continuação da saga Jak and Daxter, mais conhecido como Jak III, nele o papel de Neil foi como programador, enquanto Bruce Straley fazia parte da equipe de Arte enquanto Amy Henning exercia o papel de uma das diretoras do projeto, consegue entender onde todos estes três talentos desenvolvedores se conheceram agora?

O talento de Neil no projeto ficou claro, e portanto, foi tendo sua voz mais ouvida dentro do estúdio, afinal ele tinha muitas sugestões relacionadas aos enredos dos projetos em que participava, quando Jason Rubin deixou o estúdio, Bruce e Amy que já haviam trabalhado com Neil optaram por dar uma chance como roteirista, e foi assim que ele participou em tal parte nos dois primeiros jogos da saga Uncharted.

Agora que vocês já sabem quem são as pessoas responsáveis por The Last Of Us, vamos focar no desenvolvimento, o conceito da obra veio da influência que Neil tinha de Ico (2001) e A Noite dos Mortos vivos (1968), vale destacar aqui que essa ideia vinha lá de 2004 quando ainda na universidade de Carnegie Mellon o seu professor e amigo pessoal do famoso diretor George Romero propôs um trabalho, onde a própria lenda do cinema avaliaria aquele com melhor nota.

Apesar de não ter seu trabalho escolhido, Neil ficou com a ideia guardada, ele sabia do potencial que havia nela, posteriormente vieram outras inspirações. O desenvolvimento foi um tanto quanto complexo, porém é fato que o time de The Last Of Us conseguiu espremer cada gota que o chip Cell do PlayStation 3 podia oferecer, seja em suas animações, efeitos de iluminação... aquilo era mais bonito que Uncharted 3 e até mesmo muitos jogos do início da vida do PlayStation 4, em 2014 o game ainda ganharia uma versão remasterizada para PlayStation 4 mirando os 1080p e 60FPS além de um suporte para HDR que chegaria depois, tornando o jogo ainda mais lindo e com texturas mais reais.

O jogo foca na história de Joel e Ellie, a forma como um vai de encontro ao outro é trágica, a cena que se passa na primeira hora do jogo e o destino cruel que a sua filha tem no início da pandemia é extremamente tocante, ultrapassa a barreira dos jogos e encontra a sensibilidade de todos nós que somos filhos ou pais, e biologicamente você é pelo menos uma dessas pessoas.

Os elementos de gameplay são relativamente básicos, um crafting aqui e ali, armas que gastam de acordo sua utilização (apenas para armas de combate corpo a corpo como facas, tacos, e assim por diante). Talvez o único ponto que deixa um pouco a desejar, mas não por falhar, e sim pela razão de que todo o resto neste jogo é tão perfeito que o gameplay acaba sendo um pouco ofuscado.

O sucesso de vendas e crítica foi absoluto, talvez em termos de narrativa (ao menos no meu ver), o jogo da década, talvez apenas o seu sucessor possa igualar ou superar este jogo, cada mensagem, cada personagem é incrível como nenhum elemento está ali está presente em vão, tudo se conversa de forma muito fluída e natural.

Após o lançamento e todo o reconhecimento possível, as vontades eram claras em parte do público de receber o mais rápido possível uma sequência, eu era uma dessas pessoas, se você vê aquele fim de The Last Of Us, no mesmo instante você quer saber o que vai acontecer a partir daquele momento.

Fato é que Neil não queria produzir um jogo qualquer, ainda mais após o também conturbado desenvolvimento de Uncharted 4: A Thief’s End que contou com animações perfeitas e uma ótima influência de Neil no roteiro após a saída de Amy do estúdio, focando mais no lado humano de drake, sua relação com Helena (acredite, se você está ou esteve em um relacionamento sério, é impossível não se identificar), Neil se viu na missão de continuar a saga de Joel e Ellie e é neste contexto que ocorreu o anúncio de The Last Of Us Part II, lá no fim de 2016, com um simples teaser trailer que deixou a todos eufóricos e boquiabertos.

O jogo passou por inúmeros problemas de desenvolvimento, relatos de abuso por parte da Naughty Dog com seus funcionários, a alta rotatividade dentro da empresa devido a tal fator de estresse constante, somado ao fato de que muitos não aguentavam a pressão dentro do estúdio e o clima pesado que foram se criando estouraram este ano quando Jason Schreier ainda na Kotaku relatou os inúmeros casos dentro da empresa, e para agravar ainda mais a situação, um ex funcionário veio a público no Twitter contar que sofreu ameaças de não receber parte da quantia que lhe era devida se ele revelasse o que ocorria ali dentro.

Não podia ficar pior, não é mesmo? Sim, podia, foi quando mais de uma hora e meia de material contendo cutscenes e obviamente, inúmeros spoilers do jogo foram vazados, fazendo com que Neil Druckmann tivesse de vir a público no seu Instagram explicar a razão de não se deixar levar pelo mesmo, de acordo ele The Last Of Us Part II é algo que deve ser vivido e não pode ter sua experiência replicada apenas sabendo o que acontece na história.

Fato é que The Last Of Us vem batendo recordes de pré venda em relação a outros exclusivos da Sony, jornalistas que já se encontram com o jogo em mãos, dizem ser uma experiência ainda melhor que o primeiro jogo e portanto, mantenha seu hype lá em cima.

Esse texto serve de preparação para The Last Of Us part II e uma carta de amor para um jogo/estúdio que moldou meu gosto para jogos, seja nas aventuras de Drake ou na mudança drástica de tom que foi The Last Of Us, mas sem dúvida alguma uma experiência indiscritível e memorável.